terça-feira, 14 de outubro de 2008
O HOMEM CRU!
Lentamente caminha. A sua volta o mundo explode em caos. A cidade soa como uma máquina implacável e ruidosa. Sente, sob seus pés, através das sandálias gastas, o calor do asfalto.
Aquilo, o som do mundo, forma em sua mente uma imagem de metal retorcido! O aço tilintando dos veículos. As explosões incessantes dos combustíveis, o cheiro dos vapores pós-combustão, as buzinas estridentes. A orquestra se harmoniza numa antiga lembrança.
A sua mente retorna a metalúrgica! Tempo que lhe custara caro. Sua juventude entregue às caprichosas exigências dos maquinários, que com carinho dedicou. Em troca teve seus olhos ceifados como paga ao excesso de zelo com aquilo que nunca lhe pertenceu.
Não teve a sorte de ver nascer seu filho, que com o dinheiro da aposentadoria criou com orgulho. Nunca deixou de trabalhar. E todo o dia pegava o ônibus e seguia para o centro de Belo Horizonte. Era lá que mantinha uma clientela fidedigna.
Engraxa os sapatos que fortuitamente encontravam seus cuidados. Homem caprichoso tem o dom do zelo. Porém sentia a cada manhã, um súbito terror ao descer do coletivo.
A mesma sensação lhe percorria. Aos primeiros sons dos automóveis sentia a carcaça ser triturada como a carne que percorre o moedor. Os ossos se reviravam os músculos se partiam. Um terror sem fim. Que culminava na lembrança do acidente em que perdera a visão.
E somente ao cheiro e ao som dos passos de Dora que essa dor lhe deixava. A mulher que sempre ia a seu encontro no ponto do ônibus. Ela que durante vários anos serviu como guia até a cadeira, que infalível o esperava. Sempre posta pelos companheiros de profissão.
José é o nome que sua mãe lhe dera. Esse homem entre tantos outros se destacava pela acuidade em deslocar-se pela cidade, imensa e como um vulcão, nunca o apavorou, mas nesses últimos dias lhe percorre, com mais freqüência, ao corpo à sensação de definhar-se aos sons emitidos por sua velha companheira.
Tinha sempre a impressão que cairia em algum abismo arquitetado por Belo Horizonte e ali seria eternamente esquecido. Essa vertigem lhe ocorria ao saltar do ônibus. Descia as escadas com cuidado, mas a impressão que o sumidouro lhe esperava era igualmente inevitável.
Quando isso não lhe ocorria. Seu pensamento lhe alertava para o possível buraco no qual José se perderia. Por vezes ironizava esse sentimento. Lembrando-se que: “Nunca fora achado. Como se perderia?” já estava perdido.
Até o dia que ela apareceu, Dora, ela tinha um cheiro de frutas frescas recém colhidas, lembrava da época em que sua mãe colhia frutas para fazer os doces. José revivia os poucos e intensos momentos em que pôde viver com a mãe. Dona Gloria lá pelas tantas da vida sumiu no horizonte sem deixar rastros, largando os filhos a mercê da sorte e quando não, do Abismo. Lugar do qual Zé nunca saiu.
Dora, ela sim era fruta madura que docemente se aproximava de José, para lhe prestar sutis cuidados, como levá-lo corretamente pelo pequeno caminho entre o ônibus e a cadeira de engraxate. Momento de êxtase para ele. Que desfrutava a cada passada da companhia da moça. Era somente um pequenino momento do dia. Depois passava o dia a ouvir outro homem a urrar sobre um bilhete de loteria.
Então, o que lhe restava de alegria era esperar por Dora. Seu filho quase nunca ia a sua casa lhe visitar. Isso não era problema, Zé se justificada entendendo que o filho tinha uma família para zelar. Motivo mais que suficiente para sua ausência.
A salvação do abismo era a voz aconchegante da moça. Sempre que ela aproximava causava naquele senhor uma extrema felicidade. Era sublima o momento do encontro.
Naquele instante o mundo escuro no qual ele estava mergulhado se iluminava. Tudo parecia fazer sentido novamente. O medo que tinha da cidade, as inseguras passadas, isso se convertia numa certeza espantosa. Sua vida infeliz, triste e solitária se dissipava ao som da voz de Dora.
Ao lugar daquele humor melancólico, sua vida se enchia da fragrância aveludada que o envolvia numa espiral de felicidade. Como aquela moça lhe dava vida? “Era pouco o que ela me oferecia, e eu nada a ela”.
Quando junto a ela, sentia um leve constrangimento que sempre revelava: “Minha filha não perca seu tempo com um velho cego!” Sentia-se desprezível e indigno da atenção dela. No que ela respondia: “O senhor não é tão velho assim!”
Realmente ele não era mesmo. O acidente lhe roubara a visão. Fez dele pesaroso e arredio a juventude. Não era somente Dora que tinha essa mesma impressão. Outros também diziam que ele tinha muita vida pela frente. Ao que ele dizia: “A vida tudo me tira. Minha mãe, minha esposa e agora minha visão. Quando mais perco, mais velho sou. Não é? Velho é aquele que tudo perde. E a mim só me falta perder a vida!” O que lhe restava eram os momentos ao lado de Dora.
Numa destas manhãs ele como de costume a esperou. Nesse dia ela não veio. Foi tomado de súbita desorientação que o levou rumo contrário à cadeira. Perdera-se pela cidade. Desgovernado trombou com alguém que caíra longe de seu alcance. Levantou-se apressado para pedir desculpas, pois o encontro fora forte. Muito mais confuso a exmo esbravejava pedidos de perdão.
Então ouviu a cândida voz de Dora. Que também reconhecera Zé. “É você Dora?” “Sou eu, Zé! Estava indo te encontrar, por que não me esperou?” Ele então a abraçando forte disse: “Case comigo Dora? Não posso viver sem você!”
Diante a demora da moça, em plena Av. Afonso Pena. Ele aproximou, tocou-lhe o rosto e sentiu umedecer as pontas dos dedos, eram lágrimas. Aterrorizado: “Desculpe, mas meu amor é muito grande por você, não sei como aconteceu!”
Ela sem responder, começou a tatear o rosto do homem! Ele incrédulo: “O que está fazendo?” e ela de imediato: “Estou conhecendo o rosto do meu noivo!”
Conto Publicado: Antologia - Contos Fantásticos v. 17 - 10.08
site: http://www.camarabrasileira.com/acol17-033.htm
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Ao vazio que existe em nós! - Bofetada
As coisas iam se desenrolando de modo meio digital. Como dígitos, sabe? Um depois do outro. A
vida hoje em dia é mesmo assim. Pela amanhã acordava, consumia sua droga, ia para o trabalho, beijava sua namorada, e dava um tapa na vertigem diária.Não que tudo isso não fosse excitante. Ou seria estressante? "Ninguém sossega!" Dizia ele. Corria atrás das horas enquanto elas o devorava. Devagarzinho, como a brasa do cigarro, que ele mesmo acendia.
Fumava para estar em outro lugar, e nunca chegava lá. Queria o dinheiro, era mesmo para se esbaldar. Comprar mais tempo, para ganhar mais. Hoje em dia ele comprava era tempo mesmo, mais nada o satisfazia. Queria o tempo para fazer aquele projeto. Depois de acabado queria mais ainda, para depois querer mais.
Então fumava, bem devagar, queimando o que lhe restava dos tempinhos que ia ajuntando.
Até que: "Para os diabos! Quero mesmo é trepar! Comer uma mulher como vi naquele filme na Internet. É aquele que a moça engolia tudo, talvez me engolisse logo de vez!"
A vida era mesmo um saquinho de excremento no qual ele enfiava a mão todos os dias! Só por diversão!
Ele estava afim, mesmo, de trabalhar como um doido. Sentia-se bem disposto, acordando aquela manhã ao lado de uma exuberante morena de acentuada cabeleira e corpo de deusa.
Quando ele assustou, ela estava ali querendo seu dedo. O que o deixou bem confuso porque ele lhe dera algo bem mais grosso. Enfim, não dava para enfiar a aliança, então ele deu foi o dedo mesmo.
E foi naquela tarde que ele parou, olhou para o horizonte e viu. O NADA!
Foi o que ele disse. Que parou e viu o nada! Quando perguntei para ele como era, ele me disse: "Não sei olhei para trás e estava cheio de coisas. Estava preenchido, todo repleto, muito bem compartimentado!"Não entendi patavina, o que significava compartimentado? Com muito rodeo ele me explicou dessa maneira: "A minha coisa toda esta cheia de outras tantas coisas que perdi o fio da meada de minha vida!"
Não resisti e então perguntei: " Por que raios você está se metendo aqui??" "Estou a fazer absolutamente nada, estou disperso, como qualquer coisa que se desgarra. Estou a girar em torno de meu núcleo vazio. Escorrendo pelo buraco negro em mim, o mesmo que me fez criar todas as coisas que na minha vida criei.”
Dei-lhe uma bofetada no meio da cara, e disse: "Pronto agora você tem uma história para contar!"
terça-feira, 8 de abril de 2008
MONUMENTO À TRAGÉDIA DO PODER
Brasília nunca deixou de ser um lugar longe das grandes temáticas nacionais. A própria fundação da cidade fora celebrada em meio a grandes convulsões. A época a preocupação da classe governante, que era nada menos que medíocre, esteve relacionada a distância da nova capital à velha, dourada e refrescante. Ficava para trás o oceano Atlântico com suas deliciosas brisas, Juscelino encaminha os rumos da pátria para o território desértico do planalto central.
A pesar e por pesar dos mitos que circundaram a decisão a cerca do translado. O que se instalou em todo brasileiro, grande ou pequeno, foi a questão, por que da mudança? Pois se o Rio é tão mais bonito, tão mais quente, tão mais sensual! Uma resposta de pronto seria: Capital de pais deve ser sisuda e retilínea como um portal, uma estrada para o futuro. Uma construção que eleve o país ao patamar de dono dos novos caminhos para a nação.
Pois bem, a propósito de um país moderno que se deva instalar e construir espaços também modernos. Surpreendentemente JK arranca a capital das franjas cálidas do mar Atlântico-Sul, berço esplêndido para o gigante, e a catapulta para o meio do nada. Lugar nenhum, onde o tempo se perdia na vastidão árida do sertão brasileiro, tornado-se quase um só ser. Tempo e espaço no coração brasileiro uma só gêneses espaço novo e tempo novo.
Pois é o que se pensa em Brasília quando se está lá? Quem conhece a capital federal do Brasil se sente suplantado por uma necessidade patriótica de se erguer diante da pátria. A despeito do romantismo dispensado nessas palavras anteriores, há, realmente, algo de romântico lá que nos surpreende por ser tão moderna. A cidade tem como linhas o arrojado desenho de um avião que está preste a decolar, para o bem ou para o mal. A estética de Brasília nos encaminha para um único sentido, a Praça dos três Poderes, centralizando em meio a vastidão do ser-tão planaltino a plenitude da democracia. Sendo essa a mais vangloriada no EIXO-MONUMENTAL.
Sendo assim, Brasília é a exaltação maior, em concreto, da democracia. E mais, da nascente Democracia brasileira. Brasília foi construída para servir de monumento à pátria brasileira, uma cidade que sintetizasse os anseios por dias mais justos e melhores para o país e essa mensagem não se esvaiu com o tempo, pois a cidade como marco arquitetônico aponta para esse fim, que deve ser exercitado sempre.
É de se espantar que essa mensagem não esteja clara, e mais ainda, que brasileiros pensem que Brasília deve continuar sendo mal compreendida enquanto guardiã, monumental da pátria, sendo assim um símbolo. Talvez ainda existam inimigos de JK ou dos construtores, que infligam contra a cidade as culpas pelos desgovernos da política contemporânea.
De fato, não é difícil confundir o espaço com as ações ali empreendidas. Pode-se até nomeclaturar essa ação política de sádomo-gomoriano, para lembrar o episódio bíblico das duas cidades que abrigavam o que havia de pior da humanidade. Brasília está longe dessa situação. A cidade expõe muito mais a contradição que existe nos meandros do poder, como um monumental arauto, ela denuncia a dificuldade que a humanidade tem em lidar com o poder a distribuição e a sua utilização para o bem comum.
Assim sendo, está muito mais próxima de Roma do que de Sodoma e Gomora. A capital da Itália é um monumento à humanidade e resiste aos tempos como maior testemunha das atrocidades provenientes da corrupção do poder. E Brasília, jovem e ingênua, prestes a completar seus 50 anos, presencia as corruptelas que acabam acontecendo no exercício da democracia.
