Brasília nunca deixou de ser um lugar longe das grandes temáticas nacionais. A própria fundação da cidade fora celebrada em meio a grandes convulsões. A época a preocupação da classe governante, que era nada menos que medíocre, esteve relacionada a distância da nova capital à velha, dourada e refrescante. Ficava para trás o oceano Atlântico com suas deliciosas brisas, Juscelino encaminha os rumos da pátria para o território desértico do planalto central.
A pesar e por pesar dos mitos que circundaram a decisão a cerca do translado. O que se instalou em todo brasileiro, grande ou pequeno, foi a questão, por que da mudança? Pois se o Rio é tão mais bonito, tão mais quente, tão mais sensual! Uma resposta de pronto seria: Capital de pais deve ser sisuda e retilínea como um portal, uma estrada para o futuro. Uma construção que eleve o país ao patamar de dono dos novos caminhos para a nação.
Pois bem, a propósito de um país moderno que se deva instalar e construir espaços também modernos. Surpreendentemente JK arranca a capital das franjas cálidas do mar Atlântico-Sul, berço esplêndido para o gigante, e a catapulta para o meio do nada. Lugar nenhum, onde o tempo se perdia na vastidão árida do sertão brasileiro, tornado-se quase um só ser. Tempo e espaço no coração brasileiro uma só gêneses espaço novo e tempo novo.
Pois é o que se pensa em Brasília quando se está lá? Quem conhece a capital federal do Brasil se sente suplantado por uma necessidade patriótica de se erguer diante da pátria. A despeito do romantismo dispensado nessas palavras anteriores, há, realmente, algo de romântico lá que nos surpreende por ser tão moderna. A cidade tem como linhas o arrojado desenho de um avião que está preste a decolar, para o bem ou para o mal. A estética de Brasília nos encaminha para um único sentido, a Praça dos três Poderes, centralizando em meio a vastidão do ser-tão planaltino a plenitude da democracia. Sendo essa a mais vangloriada no EIXO-MONUMENTAL.
Sendo assim, Brasília é a exaltação maior, em concreto, da democracia. E mais, da nascente Democracia brasileira. Brasília foi construída para servir de monumento à pátria brasileira, uma cidade que sintetizasse os anseios por dias mais justos e melhores para o país e essa mensagem não se esvaiu com o tempo, pois a cidade como marco arquitetônico aponta para esse fim, que deve ser exercitado sempre.
É de se espantar que essa mensagem não esteja clara, e mais ainda, que brasileiros pensem que Brasília deve continuar sendo mal compreendida enquanto guardiã, monumental da pátria, sendo assim um símbolo. Talvez ainda existam inimigos de JK ou dos construtores, que infligam contra a cidade as culpas pelos desgovernos da política contemporânea.
De fato, não é difícil confundir o espaço com as ações ali empreendidas. Pode-se até nomeclaturar essa ação política de sádomo-gomoriano, para lembrar o episódio bíblico das duas cidades que abrigavam o que havia de pior da humanidade. Brasília está longe dessa situação. A cidade expõe muito mais a contradição que existe nos meandros do poder, como um monumental arauto, ela denuncia a dificuldade que a humanidade tem em lidar com o poder a distribuição e a sua utilização para o bem comum.
Assim sendo, está muito mais próxima de Roma do que de Sodoma e Gomora. A capital da Itália é um monumento à humanidade e resiste aos tempos como maior testemunha das atrocidades provenientes da corrupção do poder. E Brasília, jovem e ingênua, prestes a completar seus 50 anos, presencia as corruptelas que acabam acontecendo no exercício da democracia.

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