
A beira do precipício longínquo, o homem não se decide se pula, e se lança no desconhecido da morte, ou se faz a volta e retorna à rotina. Ambas decisões representam um risco ao qual esse camarada não está disposto a bancar.
Levar a vida e correr os riscos e angústias inerentes a condição humana ou se lançar num voo fatal contra as rochas lá em baixo.
Preferiu se deitar entre a linha tênue que divide a vida e a morte. Com a cabeça apoiada sobre uma aconchegante pedra, esse mesmo homem, admira o primeiro voo dos pássaros que fazem residência no penhasco do abismo. Enquanto o sol faz sua jornada ao ocaso, ele admira uma jovem ave que sofre duras imposições por parte de outra, a pesar de ambas terem o mesmo aspecto físico, ele deduz que a que inflige golpes contra a outra seja a mãe que expulsa o filho do ninho. E o filhote, sem ter para onde se refugiar, bate as assas freneticamente e se lança no abismo, sumindo da vista do observador deitado no limiar.
O homem então, admirado pela ação da avezinha, chega a cabeça um pouco mais adiante para poder ver o destino do pobre filhote. Enquanto ele busca pela ave algo irônico irrompe na realidade, a pedra onde seu corpo se apoiava, a beira do precipício, rompe contato com o rochedo e ele vê seu corpo seguindo junto ao bloco a trajetória linear guiada pela gravidade. Antes que ele perdesse contato com o restante do rochedo e seguisse destino final ao sopé da montanha, ele se atira rumo a vida, e batendo a ponta do estômago contra a pedra consegui se agarrar a uma moita próxima ao abismo, ficando metade sobre o rochedo e o restante do corpo dependurado no vazio.
Enquanto o vento sopra forte e gelado, ele sente o fim lhe tragar para o fundo da cratera, donde seu corpo certamente teria destino derradeiro, caso não fosse suas forças recobrarem em seus braços, a respiração se elevou drasticamente e com uma força que nunca tinha empreendido antes conseguiu se agarra a uma fenda na rocha onde agora sua mão encontrou mais conforto para se apoiar e elevar suas pernas para longe do vácuo do precipício.
Rolou aliviado para longe do limiar, e ficou deitado admirando o céu, as nuvens esparsas e os pássaros flutuando nos ventos. Buscou acalmar a respiração e limpar o suor da testa, aos poucos se levantou bem devagar, sentou-se, agora mais distante do abismo, se recompôs e mais uma vez deu uma rápida olhada para o abismo que o olhou também. Virou-se, agora mais certo que deveria ir para casa, e ao dar uns quatro passos em direção a vida, viu pousado na árvore a sua esquerda, o filhote, olhando para ele, como se ele estivesse ali a algum tempo se admirando do esforço do homem, e ambos por segundos se reconheceram e então alçaram voo rumo a vida!
Um comentário:
Apreciei muito este texto! viver é sempre um risco... e pior que tentar o voar é desistir dele.
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