Ontem à tarde, passando por uma das ruas do centro de Belo Horizonte, me deparei com uma figura cotidiana do cenário urbano. Talvez seja cotidiana em qualquer cidade do Brasil.Havia ali um senhor, pelo menos ao que parecia, puxando pela avenida um enorme carrinho. O diminutivo não faz de maneira alguma jus ao aparato, que era um enorme trambolho. Lotado de todo tipo de tranqueira descartável.
Vinha pela rua arrastando aquela geringonça e atrapalhando o tráfego. Puxava o carrinho, por entre os carros nas vias repletas. Entre um e outro veículo que passava por ele, ouviam-se impropérios e maledicências. “Sai da frente!”, “Tá cego!”, “Quer morrer!”, entre outros descabidos para estas linhas.
A cena me levantou a questão: qual pena esse coitado está pagando? A cidade escura, iluminada pelos faróis, parecia com recônditos infernais, representados por Dante em sua “Divina Comédia”. Os motoristas, como os demônios, carrascos do próprio satã, imolavam o pobre coitado.
Retomado da imagética caricatura que me passou pela mente, retornei à questão. De fato, aquele homem pena alguma pagava. Certamente, nascera no berço da ignorância, foi amamentado pela miséria e encontrou no trabalho a redenção. Mais vítima que algoz, mais consequência que causa. Encontrou na labuta de catador de materiais recicláveis caminho próspero e digno.
A resposta estava ali, clara, como os faróis dos ônibus que passavam. A pena quem paga somos nós. Jogando ao abismo da pobreza nossos cidadãos e compatriotas. Livrar o país da miséria é encontrarmos a salvação para nós mesmos, para o nosso país.
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