Ao longe, o horizonte anunciava a borrasca… Ela se acinzentava como uma coluna de chumbo sobre o céu.
Ao convés, os homens se entreolhavam ao perceber que o destino não era outro senão adentrar as águas acizentadas, turvas, escuras como a boca do inferno.
O capitão se postava diante dos marujos, como se fosse ele o próprio Netuno. As vagas explodiam contra a proa do navio e o o vento assoviava forte que mal se ouvia o que ele bradava aos homens.
Minha cabeça tomada por palavras e sentimentos sobre a vida e o fatídico destino que me ligara as madeiras daquele galeão, atordoado, mal compreendia o que se passava, até o contramestre me dar a ordem:
- Segurem o cordame! Você, abaixa aquela vela!
- Segurem o cordame! Você, abaixa aquela vela!
Rapidamente cumpri os comandos antes que fosse notado pelo contramestre. Meu cargo de chefia me obrigava a ser exemplo para os demais marinheiros.
Enquanto eles corriam de cá para lá, como ratos prestes a serem afogados, eu me agarrava a escada de cordas que levava ao alto dos mastros. As gotas de água salgada tingiam minha face enquanto o vento as secavam da minha pele.
O galeão erguia-se nas ondas, subia e caia na seguinte. Afundando o casco do navio até o convês beber água, subia novamente e se lançava na onda seguinte.
O som atordoava a todos, mas em nenhum momento, houvera homem que se erguesse contra as ordens do capitão:
- Para dentro da tempestade! - Ele urrava aos marujos.
Finalmente o breu do céu desceu sobre nós, como uma maldição.
Enquanto a água não caia o vento gritava em nossos ouvidos. Os mais apressados se amarravam ao navio enquanto a água invadia os decks.
Sobre nós, impávido como o mármore, o capitão olhava para o fundo da tempestade. Vendo o próprio demônio a nos aguardar, ansioso para devorar nossas almas.
Aquele dragão do Mar não colocava medo no Capitão, mesmo sabendo que o La Luna não passaria daquelas horas. O homem encarava o desastre com ambição. Jamais qualquer navio criado pelo homem atravessaria, incólume, aquelas águas.
Por fim, a chuva começou, nunca foi tão áspera e fria. A torrente tão forte quase me arrancava das cordas, alguns pequenos, aprendizes de marujos, eram engolidos pelo mar. As línguas d’aguas invadiam o convés e eles, simplesmente, desapareciam entre as espumas brancas.
Outros, menos experientes, corriam desesperados para a barriga do navio, o capitão simplesmente os seguiam com os olhos, os desertores, eram capturados e sumariamente jogados nas ondas cinzentas, pelo algoz do navio.
Entre os que estavam sobre meu comando, aqueles mais jovem, me olhavam com olhos de angustia. Mandei que se acalmasse e tentando me enganar gritei:
- Vamos sobreviver a essa tempestade, segurem-se! - Seus olhos se iluminaram e todos se agarram nessa fé…
